REFLEXÕES SOBRE OS DESENHOS DE JOÃO DE ALMEIDA
Hellmut Wohl,
Professor Emérito de História de Arte da Universidade de Boston
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Vi pela primeira vez os desenhos desta exposição quando o João mos mostrou em Agosto do ano passado. Para ele, eram um novo ponto de partida. O que pensei eu deles? João é um arquitecto profissional. Terá o seu talento na arte do desenho atingido a elevada fasquia a que sempre se obrigou como arquitecto? E será que o uso que ele faz desse meio que é o desenho expressa e transmite com sucesso aquilo que sente perante os temas da natureza que tem vindo a representar? Pensei, quando o João me mostrou os desenhos no verão passado, e penso com mais convicção ainda agora que os revejo, que além de lindíssimos como desenhos, são únicos na resposta que dão às formas da natureza. Seria talvez até mais ajustado dizer que eles são lindos como desenhos por causo da resposta que dão às formas da natureza. Se tivesse de descrever ou caracterizar essa resposta a palavra que usaria seria táctil. É uma maneira de abordar a representação de objectos mais frequentemente associada, embora não exclusivamente, à pintura do que ao desenho. A primeira tarefa do pintor; assim o escreve Bernard Berenson no seu Pintores Florentinos do Renascimento,
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Arthur Pope na Linguagem do Desenho e do Pintura chamou à técnica de estimular a ilusão de tocar no objecto representado o "modo do relevo". Não é uma técnica linear - linhas nos desenhos em modo de relevo são contornos ou cercaduras dos objectos - mas sim a de modelar dentro do contorno da forma, passando de valores mais claros a mais escuros, por forma a produzir a ilusão da existência tridimensional do objecto representado. Nos seus desenhos de árvores e falésias João faz isto de modo soberbo e nesse aspecto eles lembram a fotografia a preto e branco, que também ela opera em termos não de linhas mas de contrastes, modulações e transições de claro-escuro. Ocorrem-me poucos desenhos de paisagem, desde que no Renascimento a paisagem se tornou por direito próprio um tema, que sejam tão acabados - não em termos de descrição, tal como com Durer ou Ruskin, mas sim de feitura - e igualmente nesse aspecto eles aproximam-se da fotografia. Mas talvez o aspecto mais fundamental em que os desenhos do João se tornam únicos é que eles transmitem uma percepção das árvores e dos rochedos não como objectos inanimados mas como seres vivos. A sua mão acompanha e modela as concavidades, as saliências, o subir e descer das cadências das rochas como se elas fossem corpos vivos e respirassem. Os troncos e os ramos das árvores estiram-se e alongam-se para fora e para cima, tal como terá acontecido com Daphne ao transformar-se em árvore. E recordam-nos a lenda da origem da arte no tratado o século XV sobre escultura de Leon Battista Alberti: |
Não existe, falando em sentido estrito, algo como verdadeira semelhança a um objecto, a não ser a réplica que iguala o original. Nem é intenção do João obter tal semelhança, excepto na medida em que os seus desenhos são imagens que configuram e exprimem a sua resposta individual, subjectiva, aos objectos que representa - árvores, rochedos, mar. Poucas dúvidas haverá quanto ao prazer que, tal como o artista protótipo de Alberti, ele terá experimentado ao fazer os desenhos desta exposição, prazer que em igual medida nos transmite e em que nos faz participar. Williamsville, Massachusets Março 2004 |