REGRESSO E RECOMEÇO
José Luís Porfírio
Crítico de Arte
As árvores, sobretudo uma certa árvore cujo tronco, longamente torcido pelo vento, fica quase horizontal em relação ao solo que o sustenta, são para mim, como para quem tenha, desde o ponto de partida, acompanhado esta aventura artística de João de Almeida, o ícone inicial de uma paisagem, vivida primeiro, e, depois, cada vez mais imaginada, numa obra que evolui e involui ao mesmo tempo.
Outro ponto de partida deste trabalho está no preto e branco, vistos por todos como uma evidência, e mais, como a necessidade, expressiva e imaginária, de uma quase pintura modulada pela técnica do pastel com todas as suas subtilezas.
No tempo que entretanto passou os ícones evoluíram e transformaram-se, chegaram as falésias de arenito, o mar e as nuvens, isto enquanto o abismo, aparentemente infinito entre o preto e o branco, era cada vez mais preenchido por uma, não menos infindável, gama dos cinzentos, quase cor ou quase pintura, que nos faziam ver o que ainda lá não estava.
Agora quatro anos depois das árvores iniciais, elas regressam, como presença dominante, nestes trabalhos mais recentes, uma presença que, afinal, é memória e é invenção também.
Agora a cor que se deixava imaginar na subtileza dos cinzas deixa-se ver, sem qualquer estridência, como se de uma outra gama de cinzas se tratasse, preenchendo o espaço que vai dos brancos que sobram aos negros que inventam sombras como coisas, ou como fragmentos que se autonomizam, corpos quase.
Quem conhecer o percurso de João de Almeida facilmente reconhecerá, na copa de certas árvores, a memória estrutural das rochas, desses mutáveis arenitos agora transmudados em folhas e, aí, poderá entender melhor o porquê do conceito de involução aplicado ao seu trabalho. Esta é uma obra feita de sensibilidade e transmutação mas que, praticamente desde o seu início, obedece a uma dialéctica de auto análise permanente desenho do desenho, como já lhe chamei, ou pintura da pintura, num constante refazer-se que é, também, constante passagem do desenho á pintura e da pintura ao desenho. O artista regressa, mas só aparentemente, ao seu ponto de partida, involui para melhor evoluir, porque ao regressar está, outra vez, começando, daí que o seu regresso signifique um contínuo recomeço.
Nossa Senhora da Graça da Póvoa e Meadas
Páscoa de 2008